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Derrubando barreiras: a história de João Vitor, bacharel em Educação Física

 

Agradecemos a colaboração de Jô Bibas, autora do texto que publicamos hoje, em que conta a emocionante história de João Vitor,  jovem com síndrome de Down do Paraná e portador de um belo diploma em Educação Física.

JOÃO VITOR CHEGOU LÁ

*Josiane Mayr Bibas

João Vítor no dia da apresentação do seu TCC

João Vítor no dia da apresentação do seu TCC

 “Por favor, me explica o que é licenciatura?” A pergunta foi a segunda que fiz a João Vitor, no encontro que marca os 4 anos de nossa conversa no dia em passou no vestibular. A primeira tinha sido sobre o que estava sentindo ao se formar em Educação Física, pela Universidade Tuiuti do Paraná.

Pois é isso mesmo. Nosso amigo, que teve seus muito mais de 15 minutos de fama por ser um jovem com Síndrome de Down que ultrapassou a barreira da entrada em uma universidade, acaba de concluir o curso. Quando passou no vestibular, causou comoção geral. “Será difícil”, diziam os mais céticos. “Como faremos?” –  se perguntavam os professores.

Durante o tempo de faculdade, estudou muito. Admite que foi mesmo difícil, precisou de apoio e foi atrás. Com a ajuda dos pais, contemplados com elogios que transitam por termos como amigos, confidentes e grandes motivadores, foi buscar o apoio de professores que reforçavam as matérias nos contra-turnos. Quase uma dupla jornada universitária. Isso sem falar dos estágios nas mais diferentes áreas e modalidades, diferentes endereços e variados horários! Conversando com João Vitor, saímos com uma sensação muito clara: a de um rapaz que tem plena consciência de que tem um ritmo diferente de aprendizagem e não vê nenhum problema em encontrar formas de fortalecer seu conhecimento, mesmo que isso signifique estudar mais, se dedicar muito, fazer hora-extra na sala de anatomia e sacrificar férias e lazer por notas boas.

A inclusão não foi fácil. Natural, se pensarmos no pioneirismo de um jovem com SD no ensino superior. Alguns professores se adaptaram, outros permaneceram com um olhar de incredulidade que foi sendo derrubado aos poucos.  Precisou lidar com provas escritas, mesmo dizendo aos professores que com provas orais teria  mais chance de demonstrar seus conhecimentos, uma vez que sabe que se expressa melhor falando do que escrevendo. É por ter convivido e superado obstáculos como esse que João me diz: ”Me formei por mérito meu”. Quando pergunto se sofreu algum tipo de preconceito, deixa claro que muitas vezes sentiu que não acreditavam em suas capacidades. Pergunto, então, como lidava com essas situações, como reagia à discriminação. Sua resposta é uma lição: “Eu trato as pessoas como gostaria que elas me tratassem”.

João precisou travar suas batalhas, mas acabou mostrando que é competente. Beatriz L. Dorigo, coordenadora do curso de Educação Física da UTP, relata que João Vitor vem sendo um aluno responsável, disciplinado e consciente de seus limites. “Ele faz tudo o que pode e mais um pouco, ultrapassa as fronteiras e vai além do proposto”. Ela usa o verbo no tempo presente pois “ele  realizou o sonho de ser um Bacharel em Educação Física e já está matriculado na Licenciatura.  E logo estará fazendo uma pós-graduação na área”. Alguém duvida?.
           
Hoje, como bacharel em Educação Física, está apto a trabalhar em academias, clubes e como personal trainner. Confirma seu projeto da entrevista de 2005: “Quero trabalhar com pessoas com necessidades especiais. Quero formar atletas. Quero que elas evoluam com eu evoluí, socialmente, cognitivamente, através do esporte”. Não satisfeito, dispara: “Já vou começar a estudar para ter a Licenciatura. Quero poder dar aulas em escolas sobre a importância de exercício físico”. João Vitor acredita que manter-se ligado à universidade aumenta seu preparo e o mantém cognitivamente ocupado. Aprendendo sempre.

Nos últimos meses, esteve estagiando em uma academia, participando do treinamento de triatletas. O professor Cassio Salgueirosa foi percebendo potenciais no lugar onde imaginava haverem apenas deficiências. Cassio conta que sempre tratou João com o mesmo nível de exigência que teve com seus outros estagiários, obtendo como retorno um desempenho com a mesma (e às vezes até maior) competência dos colegas. Vê seu ex-estagiário como um exemplo que, consciente de sua dificuldade, está sempre provando que é capaz.  Me diz que “o que as pessoas com necessidades especiais precisam é de oportunidades”. Assim, ao assistir a apresentação do TCC de João, decidiu: o trabalho com João e, o mais importante, o trabalho DE João, fez com que Cassio criasse um novo projeto: os benefícios da corrida para pessoas com síndrome de Down. Por conta da idéia, João Vitor está treinando duas vezes por semana com o professor em um belo parque nas manhãs geladas de Curitiba, e se prepara para formar uma equipe de corredores com SD. Ou, como ele mesmo diz, de caminhadores a maratonistas, cada um do seu jeito, mas todos aprendendo que atividade física faz bem para o corpo, para o social, para o cognitivo. Como fez bem para o João.

Bonito ver o jovem desempenhando como palestrante, apresentando seu Trabalho de Conclusão de Curso, coberto por um belo terno azul-marinho e de uma segurança que impressionou e emocionou até os professores mais reticentes. O tema não podia ser outro: “A Influência da Atividade Física no Desenvolvimento Físico-Motor das Pessoas com Síndrome de Down: Visão Familiar”. O professor Eduardo M. Scheeren, seu orientador neste trabalho, ficou impressionado com a maturidade de João Vitor no conhecimento sobre sua síndrome e diz ter aprendido muito com ele. “A literatura ainda é muito limitada ao apresentar todo o potencial que uma pessoa com SD pode desenvolver, e isso pode conduzir a uma visão errônea de suas reais capacidades. Com o João pude ver que as barreiras impostas pelo contexto científico podem ser transpostas pela superação e força de vontade. Considero o João Vitor um exemplo da grande potencialidade de uma pessoa com SD”, afirma. E enfatiza, ao dizer que as qualidades de João Vitor estão além do aspecto cognitivo, pois, aluno exemplar, sempre cumpriu nos prazos suas tarefas, trabalhos e provas. Articulado, muitas vezes se destacou pela desenvoltura de sua oratória. “É um jovem extremamente educado que sempre soube me respeitar como pessoa e professor.”
Neste ponto, me permitam uma reflexão sobre o depoimento deste professor. A inclusão tem dessas coisas, faz a gente aprender que jovens como João Vitor, que inicialmente despertam tanta resistência, nos ajudam a resgatar velhos valores e a ver que eles podem ensinar coisas meio esquecidas por tantos estudantes de hoje: a educação,  o respeito mútuo, a disciplina. E acima de tudo, a superação.

E termino citando novamente o professor Eduardo que, por sua vez, citou Jean Cocteau: “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez”. João Vitor até sabia que seria difícil. Mas foi lá e se formou em Educação Física.

Mais uma vez, parabéns, João.

*Josiane Mayr Bibas é fonoaudióloga com experiência de mais de 22 anos no atendimento a crianças com Síndrome de Down. Juntamente com a também fonoaudióloga Ângela Marques Duarte, acaba de lançar em Curitiba o livro “Idéias de Estimulação para a Criança com Síndrome de Down”.

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BEM VINDO À ITÁLIA!

“Freqüentemente me pedem para descrever a experiência de dar à luz uma criança portadora de necessidades especiais.

 Eu diria assim:

Ter um bebê é como planejar uma fabulosa viagem de férias para a Itália. Você compra um monte de guias e faz planos maravilhosos: o Coliseu, o Davi de Michelangelo, as gôndolas em Veneza… Você até aprende algumas frases em italiano. É tudo muito excitante.

Após meses de antecipação, finalmente chega o grande dia.

Você arruma as malas e embarca. Algumas horas depois, você aterrisa. O comissário de bordo chega e diz: “Bem-vindo à Holanda!”.

Holanda? – diz você. O que quer dizer com Holanda? Eu escolhi a Itália! Eu devia ter chegado à Itália. Toda a minha vida eu quis conhecer a Itália!

Mas houve uma mudança no plano de vôo. Eles aterrisaram na Holanda e é lá que você deve ficar. O mais importante é que eles não levaram você para um lugar horrível e desagradável, com sujeira, fome e doença. É apenas um lugar diferente.

Você precisa sair e comprar outros guias. Deve aprender uma nova língua e irá encontrar pessoas que jamais imaginara. É apenas um lugar diferente. É mais baixo e menos ensolarado que a Itália. Mas, após alguns minutos, você pode respirar fundo e olhar ao redor.

Começa a notar que a Holanda tem moinhos de vento, tulipas e até Rembrandt e Van Gogh. Mas, todos os que você conhece estão indo e vindo da Itália, comentando a temporada maravilhosa que passaram lá.

Por toda a sua vida você dirá: Sim, era onde eu deveria estar. Era tudo o que eu havia planejado.

A dor que isso causa, nunca, nunca irá embora, porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa.

No entanto, se passar toda a vida remoendo o fato de não ter chegado à Itália, nunca você estará livre para apreciar as coisas belas e muito especiais existentes na Holanda.”

Emily Perl Knisley

Este texto tornou-se um verdadeiro clássico como mensagem para pais e mães de crianças com deficiência. A primeira vez que o li, minhas filhas ainda eram recém-nascidas. Não consegui ter uma opinião clara sobre ele, mas também não gostei. Hoje, dois anos depois, consigo entender o porquê… Naquele momento, ainda fragilizada pelas dúvidas sobre o futuro, o texto só fez reafirmar as idéias de frustração e luto, e me apresentavam a minha filha como um projeto que jamais se tornaria realidade. Ainda acho o texto tocante como tradução legítima do sentimento de UMA mãe, mas em nenhuma hipótese válido como ilustração da experiência de todos os pais e mães que acabam de receber um filho com deficiência.

 As experiências da vida, sejam elas quais forem, tem valor absoluto e relacionado a cada indivíduo. Aprendi a admirar as corridas de rua, porque são o melhor exemplo disso. Um dia, até penso em participar de uma prova… Quando este dia chegar e eu tiver completado os meus cinco quilômetros em não sei quanto tempo, com certeza irei vibrar tanto quanto o primeiro colocado. Talvez, até, ele se sinta frustrado porque esperava por um tempo melhor, enquanto eu estarei realizada por ter conseguido chegar ao fim da corrida. Este raciocínio torna a Itália acessível a todos nós, inclusive àqueles que tem filhos com deficiência. Por isso, sinto-me à vontade para propor um novo texto, baseado na mesma idéia de VIAGEM.

Eu poderia descrever a experiência de dar à luz uma criança com deficiência como planejar uma fabulosa viagem de férias para a Itália. Você se prepara buscando informações na Internet, compra guias, conversa com pessoas que já estiveram lá e não consegue esquecer aquelas imagens maravilhosas dos filmes clássicos: o Coliseu, o Davi de Michelangelo, as gôndolas em Veneza…  Você até aprende italiano!! Sabe que, no entanto, toda viagem pode trazer surpresas…

Você começa a pagar a viagem um pouco antes, conseguiu dividir o pacote em 10 vezes no cartão.

Finalmente chega o grande dia!!! Você arruma as malas e embarca. O vôo é tranqüilo, depois de algumas horas de viagem o avião aterrissa. O comissário de bordo fala uma língua estranha, você não lembra de ter lido aquelas palavras no seu livro “Aprenda italiano em uma semana”. Um brasileiro que viajava atrás de você o reconhece pelo endereço na sacolinha da agência de viagem, bate no seu ombro e diz: “Bem-vindo à Holanda!!!”

Holanda? – diz você. O que quer dizer com Holanda? Eu escolhi a Itália! Eu devia ter chegado à Itália. Toda a minha vida eu quis conhecer a Itália!

Mas a Holanda é o fim da linha… Você desce do avião, desesperado, sem saber o que fazer.  Anda de um lado pro outro, procura pelo brasileiro do avião, não consegue se fazer entender. De repente olha para o painel de decolagens e percebe… está prestes a perder a conexão… para ROMA!!!

A felicidade é tanta que você entra no avião disposto a curtir ainda mais tudo que a Itália tem para oferecer, e fica sonhando com aquele cheirinho de molho de tomate com manjericão.

Você já tinha ouvido coisas maravilhosas a respeito da Holanda, é verdade. Mas era a Itália o grande sonho… E ele permanece. Depois de uma temporada feliz na Itália,  você descobre que ainda existem muitos outros países a serem visitados, muito mais cheiros e sensações a serem experimentadas. A Itália é só o começo de uma grande volta ao mundo, e ao longo dela você coleciona histórias maravilhosas.

Quanto à dor… Bom, a dor de não ter ido imediatamente para a Itália, você supera. O que de vez em quando dói é quando você conta, e ninguém acredita que realmente esteve lá.

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