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Feliz Ano Novo!

 

 

Eu arrumava o quarto quando Sophia apareceu e pediu para eu colocá-la no berço. Em alguns segundos, parte dos objetos que estavam sobre a cômoda apareceram no chão, atirados um a um por ela. Numa atitude tipicamente estressada, eu simplesmente a retirei do berço, reclamei que ela bagunçava enquanto eu arrumava e continuei o meu trabalho. Poucos minutos depois, sem que  eu percebesse, aparece Sophia no berço novamente.

– Como é que você foi parar aí?

Ela apontou para a cama, usada como apoio para alcançar a cabeceira do berço, deu um sorriso triunfante e disse olhando nos meus olhos:

Oxinha!

– Você entrou no berço sozinha, minha filha?

De novo, ela balançou a cabeça afirmativamente e disse:

Oxinha!

Comemoramos juntas a façanha, enquanto eu registrava aquele sorrisinho sapeca na minha memória para jamais esquecê-lo.

Imediatamente eu lembrei-me de um pediatra, que me disse que a “vantagem” de ter um filho com síndrome de Down é que ele nunca irá nos deixar (não preciso dizer que ele só examinou minhas filhas uma vez). Não consigo imaginar nada mais egoísta do que ver a eventual dependência de um filho como uma vantagem. Ao mesmo tempo, refleti sobre o quanto uma afirmação como estas carrega de falta de fé na capacidade do outro.

A Inclusão para a Autonomia foi o grande tema do Dia Internacional da Síndrome de Down em 2009. Que em 2010 esta idéia amadureça e se torne ainda mais efetiva, não só em relação às pessoas com Síndrome de Down mas a todos aqueles que, por conta da deficiência, ainda são vistos e tratados como eternas crianças.

Basta ser filho, para ser pra sempre. Minha filha Nathalia, que não tem síndrome de Down, não vai deixar de ser minha filha mais cedo do que Sophia. Elas serão minhas filhas eternamente. Mas o meu coração de mãe, com todos os vícios e fraquezas que lhe são permitidos,  prepara-se desde já para deixá-las ir. Com seus dois aninhos e mais um pouco, Sophia já conhece o gosto da conquista alcançada com os próprios recursos, à custa do próprio esforço. Ela já sabe o quanto é bom estar no lugar em que se quer, a despeito de alguém querer impedi-la de chegar lá.

Que o Ano Novo venha repleto de conquistas, pessoais e coletivas, para tornar a vida das pessoas com deficiência cada vez melhor.

Numa sociedade inclusiva, o bem de um é o bem da maioria.

 Feliz Natal e um ano de 2010 abençoado!!!

 São os votos de Ana Paula, Nathalia e Sophia

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“Você consegue, irmãzinha, você consegue!”

Eu estava ocupada na cozinha, as crianças brincavam na sala. De repente ouço a voz entusiasmada de Nathalia:

– Voxê conxegue, imãginha, voxê conxegue!!

No chão um tapete de EVA, sobre o qual se encontravam alguns “obstáculos” cuidadosamente arrumados por Nathalia para que Sophia pulasse, entre eles um livro e alguns brinquedinhos.

Resolvemos então, todos, participar da brincadeira; mamãe, vovô, vovó, titio e titia entraram na torcida. Nathalia pulou antes de Sophia, mostrou como ela deveria fazer e continuou incentivando: “vai, imãginha, voxê conxegue!” Sophia largou a sua inconfundível gargalhada e partiu cheia de determinação em direção ao tapete; correu, pulou o primeiro, o segundo obstáculo. Não tirou os dois pés do chão, como a irmã havia mostrado. O que não  impediu Nathalia de explodir numa exclamação de alegria, acompanhada de muitas palmas: “aê imãginha, voxê conxeguiu!”

Às vezes fico espantada como encontro no meio da minha sala metáforas perfeitas para a verdadeira inclusão. Tudo o que Nathalia queria era que Sophia atravessasse o tapete e pulasse os obstáculos, o que ela fez, do jeito dela. Enquanto isso, continuamos insistindo num modelo de escola que estabelece os mesmos objetivos, a serem alcançados ao mesmo tempo e seguindo o mesmo caminho para todas as crianças. As dificuldades dos alunos são sempre um problema deles, nunca da escola. Este modelo não exclui apenas o estudante com deficiência, mas todos aqueles que não respondem ao projeto institucional na forma e no tempo previstos. Não é à toa que o bullying é um problema tão grave nas nossas instituições de ensino.

A brincadeira inocente das minhas filhas mostra com clareza o que é mais importante: é poder pisar no mesmo tapete, é sentir o prazer de vencer os obstáculos. É ter acesso à brincadeira, à informação, à convivência com os outros. É poder brincar, dividir o lanche, descobrir as letras, ouvir as histórias. Não importa se o caminho até o outro lado do tapete é feito com os dois pés, num pé só ou pilotando uma cadeira de rodas; o importante é poder experimentar tudo isso. O tapete de EVA, aliás, é uma das melhores invenções dos últimos tempos para mães e crianças, dando a estas a liberdade de cair –  e levantar, quantas vezes forem necessárias.

Mais uma vez, Nathalia me convida a acreditar em Sophia como fez alguns meses atrás, quando ver as duas correndo juntas ainda era um sonho (Vem, Sophia, vem brincar!). Querer muito fazer algo é o primeiro indício de que estamos aptos a alcançar o nosso intento. Às vezes, só é preciso ter alguém por perto que nos diga: “VAI, VOCÊ CONSEGUE!”

Nathalia e Sophia tem 2 anos e 4 meses

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PELO DIREITO DE NÃO SER ESPECIAL

A atriz Thais Araujo, questionada sobre o fato de ser a primeira protagonista negra de uma novela das oito, respondeu falando da sua satisfação ao receber o roteiro com a descrição do personagem: Modelo, 30 anos. Alusão à cor? Nenhuma. É vergonhoso para um país como o Brasil, com seu povo mestiço e, em estados como a Bahia, predominantemente negro, o fato de que uma atriz negra seja protagonista de novela cause sozinho tanto furor.  Deveríamos estar acostumados a ver nossas belas e talentosas moças de pele escura ocupando os papéis principais nas novelas, desfilando nas passarelas… Mas onde elas estão? Não existem? A propósito, não haveria sequer uma menina brasileira negra que estivesse à altura do “Garota Fantástica” da Rede Globo?? Como disse a própria Thaís Araújo, o objetivo é que a participação dos atores negros chegue a um nível que a alusão a cor não seja mais necessária. Que isto seja NORMAL.

De acordo com o censo do IBGE de 2000, existem no Brasil cerca de 10 milhões de pessoas com deficiência. Mas os tipos de deficiências somam quase 35 milhões. Chamar a todo este contingente populacional de “especiais” não ajuda ninguém, por mais poético e bem intencionado que o termo possa parecer. Existem necessidades comuns entre as pessoas em função do tipo de deficiência, mas isto não os torna todos membros de uma categoria “especial” de seres humanos.

Aboli de início o título de “criança especial” para minha filha com síndrome de Down, uma vez que não concordo com a generalização que ele promove mas, principalmente, porque seria injusto com a outra. Quando Nathalia passou a reclamar do fato de eu sair todos os dias “só com Sophia”, fui instruída por algumas pessoas a explicar-lhe que ela deveria entender que sua irmã é “especial”.  Mas como eu posso afirmar que uma filha é especial, e a outra não? Quem por acaso não acha que o filho é a criança mais especial do mundo?

Uma das coisas que mais me surpreendeu quando comecei a ter contato com pais e mães de outras crianças com síndrome de Down foi constatar a enorme população de meninos e meninas com a trissomia 21. E por que eu não os vejo todos os dias, nas pracinhas, nos shoppings, nos consultórios pediátricos? Por que a minha filha foi o primeiro bebê com síndrome de Down que eu vi? Creio que o fato de o “Especial” ter ganho tanta força decorre mesmo da “especialidade” causada pela exclusão. A falta de acessibilidade fecha as portas a boa parte das pessoas com deficiências físicas de restaurantes, bares, teatros, cinemas… O preconceito segrega aqueles com deficiências intelectuais a escolas próprias e nega-lhes, ainda, o direito à convivência social. É uma população enorme, que continua invisível, porque não permitimos que ela esteja conosco.

 Somos nós, pais e mães, os primeiros responsáveis a promover a inclusão dos nossos filhos e a lutarmos contra a sua condição “especial”. Existem mil e uma razões para os nossos filhos serem especiais, que nem de longe passam pela deficiência. Neste ponto, um filho não é diferente do outro. Porque deveria ser diferente, então, quando se trata da vida em sociedade? 

Claro que a minha filha é especial, porque saiu da minha barriga. Nisto ela não é diferente da irmã. Mas não quero que ela seja “especial” pro resto da vida, simplesmente porque tem síndrome de Down. Existem mil e uma razões que fazem das minhas filhas pessoas especiais mas, aí, só conhecendo-as pessoalmente pra saber.

Cena vivida por mim esta semana: coloco Sophia sentada numa cadeira, na sala de espera de uma clínica. Uma pessoa lança um breve olhar sobre ela e me pergunta – ela é especial, né? Eu respondo: – Não, ela tem Síndrome de Down.

Para terminar, sugiro a leitura do texto “Vai escrever ou falar sobre deficiência? Saiba o que dizer e, principalmente, o que NÃO dizer” 

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Bibliotecas Públicas realizam programação especial de promoção à inclusão em Salvador

 
 
No mês de setembro, as Bibliotecas Públicas realizam a “Primavera da Inclusão”, uma programação especial voltada para promover a inclusão de pessoas com necessidades especiais, além de discutir e estimular a participação cidadã. As bibliotecas públicas do Estado oferecerão aos seus usuários palestras e oficinas gratuitas focadas nos direitos de pessoas surdas, cegas e portadores de deficiências físicas. É a promoção do acesso sem restrições.

Na Biblioteca Anísio Teixeira (BAT), o I Seminário “A importância da Biblioteca na vida sociocultural do surdo” dará início às atividades. Promovido pela Fundação Pedro Calmon/Secult, o seminário acontecerá no dia 12 de setembro, das 8 às 18h. As inscrições são gratuitas e poderão ser feitas através do email bat@fpc.ba.gov.br ou dos números 31176337/6339. Será fornecido certificado aos participantes. Na ocasião, ocorrerá também a inauguração do Setor de Atendimento à Criança e ao Adolescente Surdo (SACAS), um espaço que oferecerá atendimento especializado para esta parcela da população.

De acordo com a Associação de Pais e Amigos de Deficientes Auditivos – APADA, 4% da população de Salvador é surda. Diante desta realidade, “a Biblioteca Anísio Teixeira, como espaço difusor da cultura e da inclusão social, desenvolve, através do incentivo à leitura, um trabalho junto aos surdos, e promove o I Seminário sobre a relevância da língua portuguesa oral e escrita para o seu desenvolvimento e relacionamento com a comunidade em que vivem, despertando-os para seus direitos enquanto cidadãos”, destaca a diretora da BAT, Ângela Deiró. O Seminário comemora também o Dia Nacional do Surdo (26/9). A data foi escolhida por lembrar o dia da inauguração da primeira escola para surdos no país, o Instituto Nacional de Surdos Mudos do Rio de Janeiro em 1857, atualmente chamado de Instituto Nacional de Educação de Surdos.

Já na Biblioteca Pública do Estado, será a vez de saber mais sobre Acessibilidade, com a especialista em Orientação e Mobilidade, Ednalva Guedes Dias, no dia 22, às 10h. A garotada também poderá participar, no dia 13, às 10h, da oficina com crianças surdas com a oficineira Marcia Araújo, na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato.

BAT – Desde o ano de 2006, a Biblioteca Anísio Teixeira promove o Curso de Noções Básicas de Libras, visando formar pessoas habilitadas para o atendimento aos surdos. Dando continuidade a esta iniciativa, foi realizada, em 2008, a primeira parte deste curso, destinado à capacitação dos funcionários da Diretoria de Bibliotecas. A BAT vem incentivando, desde então, a inclusão do surdo de várias formas. Dentre elas, destaca-se, por exemplo, a exibição de filmes nacionais com legenas em português e a presença de um funcionário capacitado para dialogar através das LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) com os frequentadores. .

Serviço

O que: Programação “Primavera da Inclusão”
Onde: Bibliotecas Públicas do Estado
Quando: Durante todo o mês de setembro
Entrada franca
—-

Programação do
I Seminário “A importância da Biblioteca na vida sociocultural do surdo”

Quando: 12 de setembro, das 8h ás 18h.
Onde: Biblioteca Anísio Teixeira
Inscrição gratuita pelos tels. 31176337/6339 ou email bat.fpc@fpc.ba.gov.br
Obs.: vagas (limitadas)

08h – Abertura oficial ( com o Hino Nacional em Libras)
08h30 – Desriée de Vit Bregrow (fono): A importância do português para o surdo (Dissertação de Mestrado – UFBA)
9h – Depoimento de Ângela Deiró, diretora da Biblioteca Anísio Teixeira, que falará sobre sua experiência com uma filha surda.
09h30 – Marcilio de Carvalho Vasconcelos (Surdo): tema “Eu surdo”
10h – Intervalo e Inauguração do SACAS – Setor de Atendimento a Criança e ao Adolescente Surdo
13h30 – Márcia Araujo (Psicóloga): A família contando história para surdo
14h – Milton Araujo (Surdo): a importância da história infantil para o desenvolvimento da criança surda.
14h30 – Nilton Sá Damasceno “Humor Surdo”
15h – Discussão para formatação de um documento onde os surdos debaterão sobre o que eles esperam do SACAS, a ser encaminhado à FPC/SECULT
16h30 – Participação de Edinilson com apresentação da tradução do Livro Curi, Curi, Curiosos da escritora Bernadeth Argolo, em Libras.
17h – Encerramento com a música “Aquarela” de Vinicius de Morais e Toquinho traduzida em Libras


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Atletas com deficiência em corridas de rua II – Formação de guias em São Paulo

A Achilles Internacional Brasil promove em São Paulo no próximo domingo, 30.08, uma aula voltada para a formação de guias de atletas com deficiência em corridas de rua. Os “Fundamentos do Guia” serão abordados na parte teórica. A prática será realizada em pista, num trajeto de 5 km.

Local: Centro de Capacitação Física e Operacionalização da Polícia Militar do Estado de São Paulo – Av. Cruzeiro do Sul, 548 – Bairro Canindé

Maiores informações podem ser obtidas através do e-mail achillesrollobrasil@gmail.com

Sobre a Achilles

A Achilles é uma organização mundial que existe há 25 anos e representada em 60 países, que declara como missão “permitir que pessoas com todos os tipos de deficiência possam participar no objetivo final do atletismo, promover a realização pessoal, melhorar a auto-estima e diminuir barreiras”.

A Achilles está apenas começando no Brasil, mas desde já tem nosso apoio e uma torcida enorme e entusiasmada, como aquela que aguarda os corredores na linha de chegada das provas de rua.

Para conhecer o trabalho da Achilles Internacional: www.achillestrackclub.org

 

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