Arquivo da tag: inclusão; Síndrome de Down

Eu e a mãe do Dumbo

Hoje de manhã assisti por acaso a um pequeno trecho do clássico “Dumbo”, de Walt Disney. Na cena, a mãe do elefantinho apresentava o filho a outras elefantas, que começaram a debochar de suas grandes orelhas. Diante da reação furiosa da mamãe Dumbo, uma delas retrucou: “mas eu não disse nada demais…”

Até anteontem eu costumava participar de uma comunidade no Orkut chamada “pediatria radical”. Lia bastante, opinava em alguns tópicos, aproveitava o espaço pra falar também sobre Síndrome de Down, esclarecer tabus, desmanchar preconceitos. Eu achava o espaço útil, por se tratar de uma comunidade altamente diversificada e com mais de 11 mil membros. Mas no último tópico do qual participei, sobre uma campanha para reeditar as bonecas da “Turma da Clarinha”, que traz também bonecos negros, alguém saiu com o comentário “eu nunca vi down negro”, que foi “esclarecido” por outra pessoa: “não existe down negro, a mutação está ligada ao gene branco”. Não pude ficar calada diante destas afirmações, e expliquei que a ocorrência da síndrome de Down não estava ligada a uma raça específica. Aproveitei para levantar o questionamento sobre a falta de visibilidade social desta população, duplamente segregada. Foi o bastante para dizerem que eu estava me alterando, me excedendo, radicalizando etc. Porque “não é crime” nunca ter visto um “down negro”, e que ninguém quis ofender. Resultado: a discussão se estendeu e no final os meus posts foram sumariamente deletados do tópico, mesmo sem encerrarem ofensas a qualquer pessoa. Fui apenas categórica na minha posição, acabei saindo de “radical” na história (achei que tivesse esse direito, pelo nome da comunidade). Outras mães de crianças com síndrome de Down se manifestaram e foram também deletadas, em nome do bom andamento do tópico, afinal dedicado às bonecas. Claro, é fácil posar de politicamente correto e comprar uma bonequinha de olhos puxados. Tem jeito mais fácil de fazer inclusão? Bonecas comportam-se, aliás, exatamente da forma que ainda querem que as pessoas com deficiência se comportem. Ficam quietinhas, confinadas às suas prateleiras, não vão pra escola e nem querem um lugar no mercado de trabalho. De vez em quando podem sair de seu lugar de boneca para ilustrarem uma matéria melosa em algum programa de TV no domingo, fazendo brotar algumas lágrimas em pessoas cuja comiseração é suficiente para tranqüilizar-lhes a consciência.

Sim, mas o que é que tem a mãe do Dumbo a ver com isso tudo?

Eu me senti assim como ela. Fazendo pouco barulho por nada, brigando demais sem razão. Esta, infelizmente, é a face do preconceito no Brasil. Com a segregação, a convivência com as pessoas e seus diversos jeitos é restrita. No terreno da desinformação se instala o preconceito, tão bem mascarado que se esconde até de quem o pratica. Eu acho mais fácil lidar com o fato de alguém chamar minha filha de mongol do que agüentar o derrame de estereótipos sobre o quanto “estas crianças são alegres e boazinhas, verdadeiros anjos”. Em tempo: anjos também não participam da vida social, eles estão flutuando sobre nossas cabeças, mas não disputam espaço conosco. Mais conveniente do que isso, só a prateleira das bonecas.

Eu sigo direitinho a cartilha das terapias indicadas para a minha filha: fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, hidroterapia, assim como atendo à cobrança da estimulação permanente. Isto não me custa nada, aprendi a gostar de acompanhar as sessões, me divertir junto com ela e fazer de tudo uma grande brincadeira. Não faço planos com relação ao seu desenvolvimento, ou sua inserção no mercado de trabalho, quando e em quê ela irá se formar. Eu a amo e sempre a amarei, independentemente do que ela se torne diante dos olhos do mundo. É assim também que eu amo a minha filha que não tem síndrome de Down. Mas reinvidico todos os dias o seu direito inalienável de ser vista, considerada e recebida como um ser único, com características e história próprias, com suas manias e habilidades que não são iguais às de mais ninguém.

Nem que pra isso eu precise mostrar a minha tromba de vez em quando.

Anúncios

6 Comentários

Arquivado em Nós três