FILHA, EU TE AMO

Quando minhas filhas nasceram há quase cinco anos e eu soube que uma delas tinha Síndrome de Down, vivi emoções conflitantes.

Ao contrário do sentimento esperado quando se tem um filho, eu nao fiquei feliz.

Nao consegui ficar feliz por Nathalia, por ser um bebê “normal”, nem por Sophia, que nasceu com um “defeito”.

Mas aí resolvi olhar de novo pra aquela coisinha pequena, de cabelinho espetado e olhinho puxado, com as bochechas mais rosadas e fofas que eu já vi. E me apaixonei loucamente por ela.

Até o momento em que eu comecei a amar a minha filha de verdade, eu só pensava em uma coisa: na síndrome, na deficiência. O que è que vai ser? Será que eu vou ter que cuidar dela pra sempre? Acho que todos estes sentimentos sao legítimos, e nao me envergonho de ter chorado um dia por minha filha ter nascido com síndrome de Down. Mas o problema maior era que eu carregava comigo o mesmo preconceito contra o qual eu hoje luto, e nao consegui enxergar no meu bebê nada além de sua condiçao genética.

Mas, graças a Sophia, aprendi que a gente ama os filhos como eles são, e a deficiência nao tem qualquer peso sobre isso.

Sophia, com seus quase cinco anos e um metro e pouco de altura, me ensina muito mais do que eu aprendi em trinta e cinco anos, quando eu recebi o privilégio de me tornar sua mae.

O que somos está dentro de nós. Nao está na nossa pele, na nossa orientação  sexual, no nosso sexo, no nosso peso. Em cada um de nós repousa uma vida repleta de possibilidades, e o preconceito só faz apagar o brilho daqueles que são  suas vítimas. O preconceito limita o acesso ao verdadeiro indivíduo, pois se concentra naquilo que ele parece. E as idéias sobre o que ele parece, muitas vezes, sao apenas estereótipos repetidos ao longo da história, que se cristalizam por causa da nossa preguiça em nos aproximarmos verdadeiramente das pessoas e conhecê-las.

21 de Março é o Dia Internacional da Síndrome de Down, e eu queria aproveitá-lo para fazer uma declaração  de amor à minha filha.

FILHA, EU TE AMO!!!

Amo minha filha, primeiramente, por ela ser minha filha. Assim como amo a sua irma gêmea, Nathalia.

Amo-a ainda mais pela forma como ela me transformou. Talvez nao seja uma dose adicional de amor, mas apenas gratidão pela pessoa em quem ela me transformou.

Além de registrar aqui a minha declaração de amor, divido com vocês o meu maior sonho.

Eu nao quero mais lutar para que a minha filha não seja vista apenas como uma portadora de deficiência incapaz. Eu nao quero mais ter que explicar tudo que ela sabe fazer. Eu nao quero mais ver gente olhando pra nós com pena ou comiseração, como se houvesse algum motivo pra isso. Também nao quero que ela seja chamada de anjo, mas que tenha direito ao exercício pleno da sua cidadania.

Eu nao quero mais ter que reiterar que a amo, nem quero ser considerada especial por isso. Não por medo, nem por preguiça.

Mas porque eu quero viver num mundo em que ela possa apenas ser Sophia, uma menina alegre, amorosa, que adora livros e chocolate. Que fica brava, chora, ri e se emociona como todo mundo. Que tem música favorita, comida preferida, que fica linda de vestido vermelho e maria chiquinha. Que sabe, como ninguém, quando eu preciso de um abraço.

Transformo a minha declaraçao de amor num manifesto de repúdio a todo e qualquer preconceito. Nao só aquele que se dissemina através das idéias, mas que se concretiza em açoes discriminatórias que continuam excluindo um contingente enorme de pessoas das melhores coisas da vida. Do preconceito que legitima a tortura e a exploração sexual de mulheres, que alimenta a violência contra os homossexuais, que segrega as pessoas com deficiência. Que torna o mundo, para muitos de nós, um lugar hostil e limitado quanto às perspectivas de felicidade.

Ajude a acabar com o preconceito, começando com os seus. Seja mais um a trabalhar para que o mundo seja um lugar melhor. Pra todos.

5 Comentários

Arquivado em Nós três

5 Respostas para “FILHA, EU TE AMO

  1. André Sena

    Perfeito Irmã!! Também amo Sophia de paixão.

    Sophi titio te ama muito….
    10000000 bjs….

  2. Aline

    Que saudades de princesa linda que por sinal já está uma moça. Bjs!!!

  3. Yuri da Costa Martinez Jr

    Vou ser Pai, e eu me preucupo muitos as vezes com ‘medo’ de que minha filha nasca com algum tipo de deficiencia q possa prejudica-la , que possa fazer outras pessoas machucarem os sentimentos dela, ou ate mesmo fazerem ela sofrer mais pelo seu probleminha ! Mais agora que li a esse post fico mais aliviado ! Pois desde que me conheco por pessoa ouço q o maior amor q pode existir é o dos pais ! Eu tenho 18 anos de idade (jovem para ser pai kkk) Amo Minha Mulher q tem 16 aninhos , mais nos dois nao planejamos constituir uma familia tao cedo ! Mais oque temos q aprender e que filho e para sempre nao importa se ela vai seguir a vida dele ! Mais ele sempre sera seu FILHO ! E eu Amo Minha Filhona ! Q Nasce no final do meis🙂 Papai Te Ama Ana Laura🙂

    • barrigainclusiva

      Yuri,
      fiquei muito emocionada com o seu post! O amor pelos filhos é assim, simples, incondicional… E o melhor de tudo é que a gente recebe esse amor multiplicado de volta.
      Você é jovem e sua mulher também, mas com certeza contarao com o apoio dos familiares nesta jornada que é trazer um filho ao mundo. Mas o mais importante você já entendeu: filho a gente ama, e pronto!!
      É natural nos preocuparmos com a saúde do bebê durante a gravidez. Ninguém quer ver um filho sofrendo. E eu estarei na torcida para que a sua mulher tenha um parto tranquilo (e muito leite!) e a Ana Laura venha cheia de saúde.

      Um AbraCo!!

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