De quem é o preconceito?

Numa das minhas muitas conversas na sala de espera da APAE em Salvador, onde levo minha filha para as sessões de Fisioterapia e Fonoaudiologia, ouvi da mãe de um dos pacientes uma história revoltante. Um sobrinho dela, que tem dificuldades para andar (não sei exatamente que tipo de deficiência ele tem, mas isso não é o mais importante aqui), resolveu (des)convidar alguns dos colegas para a festinha do seu 7º aniversário. Pegou os convites e os embolou, um a um, diante das crianças escolhidas, dizendo: – este é o convite do meu aniversário, mas você não está convidado. Estes eram os colegas, justamente, que passavam a maior parte do tempo humilhando-o e diminuindo-o. Segundo a minha amiga, o pai do menino muitas vezes o encontrou cedo acordado na cama, com os olhinhos inchados de chorar a noite inteira, por causa do que as outras crianças o faziam passar na escola.

A direção, diante do ocorrido, resolveu interferir e convidou os pais das crianças envolvidas para uma conversa. Não, não foram os pais dos autores do bullying, que levaram uma criança a uma atitude tão extrema, chamados a esclarecer  o comportamento dos filhos. Foram os pais do menininho, vítima precoce do preconceito e da intolerância, os intimados a explicar tamanha falta de educação.

Minhas filhas tem 2 anos e meio e eu comecei a procurar escola para elas. Sinceramente, por mais que me digam o quanto isso é importante, se eu pudesse retardaria este momento o máximo possível. Segundo pesquisa publicada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe)  em junho deste ano, 99,3% das pessoas no ambiente escolar apresentam algum tipo de preconceito. Foram entrevistadas mais de 18.000 pessoas entre alunos, seus pais e mães, funcionários, professores e diretores, que declararam ter preconceitos de caráter etnorracial, socioeconômico, com relação a portadores de necessidades especiais, gênero, geração, orientação sexual ou territorial.

Tenho medo que minhas filhas sofram algum tipo de preconceito? Na verdade, este não é o problema. O meu maior temor é que a escola não dê continuidade aos valores de respeito ao ser humano que eu tanto prezo. Que elas comecem a enxergar as diferenças de cor, tamanho, origem entre as pessoas e comecem a hierarquizá-las, ao contrário de se deslumbrarem diante da maravilhosa diversidade humana. Que vejam as diferenças entre si próprias de modo negativo! Porque eu já recebi o conselho para alisar o cabelo de Nathalia, assim que ela estiver um pouco maior (para que ela não se sinta “pior” do que Sophia, que tem os cabelos lisos). Como dizem os mais velhos aqui na Bahia, cabelo é tão bom que nem a terra come.

Meu temor é que a vida real da escola mostre às minhas filhas que a nossa realidade inclusiva não passa de um sonho. Que elas passem a acreditar que seus lugares no mundo não são os mesmos.  Muita gente já me alertou para a crueldade das crianças, se não seria melhor deixar Sophia “protegida” numa escola especial. Trabalhei durante muito tempo com crianças, sentava junto com elas no chão para ensinar-lhes música, contar histórias, antes de tudo sempre gostei de ouvi-las. Crianças não são cruéis! Elas só assimilam o ambiente em que vivem. E observar que não poupamos os nossos filhos dos nossos preconceitos e que eles só são reforçados no ambiente escolar é desanimador.

Mas Sophia vai pra escola, sim. E pra escola regular. Espero que ela e Nathalia aprendam muita coisa, e ensinem também. Uma mais alta, outra mais baixa. Uma de cabelo enroladinho, outra de cabelo liso. Uma com síndrome de Down, outra não. Mas gêmeas, filhas da mesma barriga, donas da mesma Humanidade.

 E vamos lutando e torcendo para que este tema entre definitivamente para a lição da escola: Gente é gente, e pronto.

5 Comentários

Arquivado em Nós três

5 Respostas para “De quem é o preconceito?

  1. Geneci

    Olá Ana querida!
    Ando sumida, estou desconectada por um tempo(espero que breve), da internet.
    Estou de mudança pra Goiás,entre o Natal e o ano novo.
    Enrim hj tive a oportunidade e vim aqui pra ler você, adoro ler o que vc escreve.
    Suas meninas estão líndas!
    Minha Belinha está demais tbém, andandoooo!!Passos firmes, chutando a bola, o que me fez lembrar de Sofia.
    Saudadona enorme querida!!
    Bjo com muito carinho!

    • barrigainclusiva

      Geneci,

      também estou com saudade de trocar idéias contigo! Fico muito feliz pelas notícias da Belinha, eu te disse que ela ia jogar duro (literalmente!🙂 ) Vc vai estar perdendo tempo se não fundar logo essa liga feminina….
      Te desejo todo êxito e felicidade na sua nova casa, que vcs sejam muito felizes e possam ainda comemorar muitas e muitas conquistas da Belinha.
      Um beijo enorme pra vc tb!!

  2. Olá,
    A sociedade inclusiva não se constitui apenas com uma arquitetura acessível ou técnicas de inclusão, ela será feita de pessoas inclusivas.
    É importante acreditar, sonhar e, principalmente, praticar, só assim vamos ver as coisas mudar – saindo da intenção pra ação.
    Obrigado por compartilhar suas angustias e suas convicções.
    Um abraços,
    Alexandre

    • barrigainclusiva

      Alexandre,
      Este é o caminho para a inclusão, de fora pra dentro, das estruturas exteriores para as cabeças e corações. Até o dia em que não mais precisemos falar dela!
      Obrigada por ouvir as minhas angústias e convicções.
      Um grande abraço pra você,
      Ana Paula

  3. Pingback: De quem é o preconceito? « Caminhos de Angola

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