“Você consegue, irmãzinha, você consegue!”

Eu estava ocupada na cozinha, as crianças brincavam na sala. De repente ouço a voz entusiasmada de Nathalia:

– Voxê conxegue, imãginha, voxê conxegue!!

No chão um tapete de EVA, sobre o qual se encontravam alguns “obstáculos” cuidadosamente arrumados por Nathalia para que Sophia pulasse, entre eles um livro e alguns brinquedinhos.

Resolvemos então, todos, participar da brincadeira; mamãe, vovô, vovó, titio e titia entraram na torcida. Nathalia pulou antes de Sophia, mostrou como ela deveria fazer e continuou incentivando: “vai, imãginha, voxê conxegue!” Sophia largou a sua inconfundível gargalhada e partiu cheia de determinação em direção ao tapete; correu, pulou o primeiro, o segundo obstáculo. Não tirou os dois pés do chão, como a irmã havia mostrado. O que não  impediu Nathalia de explodir numa exclamação de alegria, acompanhada de muitas palmas: “aê imãginha, voxê conxeguiu!”

Às vezes fico espantada como encontro no meio da minha sala metáforas perfeitas para a verdadeira inclusão. Tudo o que Nathalia queria era que Sophia atravessasse o tapete e pulasse os obstáculos, o que ela fez, do jeito dela. Enquanto isso, continuamos insistindo num modelo de escola que estabelece os mesmos objetivos, a serem alcançados ao mesmo tempo e seguindo o mesmo caminho para todas as crianças. As dificuldades dos alunos são sempre um problema deles, nunca da escola. Este modelo não exclui apenas o estudante com deficiência, mas todos aqueles que não respondem ao projeto institucional na forma e no tempo previstos. Não é à toa que o bullying é um problema tão grave nas nossas instituições de ensino.

A brincadeira inocente das minhas filhas mostra com clareza o que é mais importante: é poder pisar no mesmo tapete, é sentir o prazer de vencer os obstáculos. É ter acesso à brincadeira, à informação, à convivência com os outros. É poder brincar, dividir o lanche, descobrir as letras, ouvir as histórias. Não importa se o caminho até o outro lado do tapete é feito com os dois pés, num pé só ou pilotando uma cadeira de rodas; o importante é poder experimentar tudo isso. O tapete de EVA, aliás, é uma das melhores invenções dos últimos tempos para mães e crianças, dando a estas a liberdade de cair –  e levantar, quantas vezes forem necessárias.

Mais uma vez, Nathalia me convida a acreditar em Sophia como fez alguns meses atrás, quando ver as duas correndo juntas ainda era um sonho (Vem, Sophia, vem brincar!). Querer muito fazer algo é o primeiro indício de que estamos aptos a alcançar o nosso intento. Às vezes, só é preciso ter alguém por perto que nos diga: “VAI, VOCÊ CONSEGUE!”

Nathalia e Sophia tem 2 anos e 4 meses

7 Comentários

Arquivado em Nós três

7 Respostas para ““Você consegue, irmãzinha, você consegue!”

  1. Olga

    Oi Ana Paula!
    Parabéns pelo blog, descobri-o recentemente!
    Você, como sempre modesta, não avisou que tinha feito o blog!
    Parabéns, estarei sempre por aqui!
    Beijos nas fofas!

    • barrigainclusiva

      Oi Olga,
      eu não só saí da comunidade como excluí o meu perfil do Orkut, pra evitar continuar participando daquela discussão. Pensei: Meu Deus, se eu posso escrever um blog e controlar o conteúdo dele, por que perder meu tempo com isso??
      Que bom que vc nos encontrou, fico feliz em estarmos novamente em contato.
      Pelo menos aqui, vc pode escrever o que quiser que eu APROVO.
      Bjos pra vcs tb!!

  2. Hilcelia Falcão

    Você tem conseguido nos mostrar o quanto ainda precisamos acreditar nos nossos sonhos para superar dificuldades de toda ordem. Yes, we can! Beijão

  3. Vivi Reis

    Parabéns Aninha…sempre iluminada!!!
    Adoro te ler !
    Mil beijos e bom domingo, curtindo nossas fofuras.

  4. elen

    Olá!
    Sou psicóloga e professora de psicologia em universidades. Preparando uma aula sobre inclusão social através da escola encontrei seu blog e sua fala sobre Nathália e Sophia… Quero que saiba que imprimi sua fala para discutir em aula… e estou certa de que será bem legal, dentro do contexto que vou abordar. Falarei para formandos de Educação Física hoje… e sua fala fará parte da minha nessa busca ao respeito pelas diferenças ao mesmo tempo em que se deve esforçar para minimizar as diferenças: sem desistência ao máximo que cada um pode chegar… sem sonegação de esforços a eles… mas sem pedir que uma lagarta voe… pois borboletas voam… lagartas andam… e chegam onde querem… Elas conseguem até sem ajuda, sem incentivo, o que mais fariam com incentivo??? Perceber quanta Eficiência há na dEficência… Farei pensar os que estão prestes a entrar no sistema de ensino para colaborar com sua luta, com sua busca de dignidade… espero conseguir alguma coisa! Espero que aqueles que não se sintam prontos e desejos de respeitar a fala de uma mãe como você, que apenas seja honesto e não se insira no sistema de ensino… simples assim… porque uma vez que compareçam à formatura e se coloquem no mercado de trabalho precisam entender que fazem parte do projeto de vida das pessoas… precisam estar á altura do sonho dos outros.
    Um grande beijo para você e as meninas! E… sim… Sophia consegue… Nathália tem toda razão! e dá show de respeito ás diferenças… melhor a gente aprender com ela!
    Elen de Leo

    • barrigainclusiva

      Olá Elen!
      Muito obrigada pelo seu comentário. Fico imensamente feliz que o meu blog ofereça subsídios para que profissionais de educação discutam a inclusão, afinal eles são importantíssimos para que ela realmente se concretize.
      Obrigada pela promoção desta causa! Sua participação no nosso blog será sempre bem vinda. Se possível, gostaria de saber a repercussão deste texto em sua aula!!

      Um abraço,
      Ana Paula

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