PELO DIREITO DE NÃO SER ESPECIAL

A atriz Thais Araujo, questionada sobre o fato de ser a primeira protagonista negra de uma novela das oito, respondeu falando da sua satisfação ao receber o roteiro com a descrição do personagem: Modelo, 30 anos. Alusão à cor? Nenhuma. É vergonhoso para um país como o Brasil, com seu povo mestiço e, em estados como a Bahia, predominantemente negro, o fato de que uma atriz negra seja protagonista de novela cause sozinho tanto furor.  Deveríamos estar acostumados a ver nossas belas e talentosas moças de pele escura ocupando os papéis principais nas novelas, desfilando nas passarelas… Mas onde elas estão? Não existem? A propósito, não haveria sequer uma menina brasileira negra que estivesse à altura do “Garota Fantástica” da Rede Globo?? Como disse a própria Thaís Araújo, o objetivo é que a participação dos atores negros chegue a um nível que a alusão a cor não seja mais necessária. Que isto seja NORMAL.

De acordo com o censo do IBGE de 2000, existem no Brasil cerca de 10 milhões de pessoas com deficiência. Mas os tipos de deficiências somam quase 35 milhões. Chamar a todo este contingente populacional de “especiais” não ajuda ninguém, por mais poético e bem intencionado que o termo possa parecer. Existem necessidades comuns entre as pessoas em função do tipo de deficiência, mas isto não os torna todos membros de uma categoria “especial” de seres humanos.

Aboli de início o título de “criança especial” para minha filha com síndrome de Down, uma vez que não concordo com a generalização que ele promove mas, principalmente, porque seria injusto com a outra. Quando Nathalia passou a reclamar do fato de eu sair todos os dias “só com Sophia”, fui instruída por algumas pessoas a explicar-lhe que ela deveria entender que sua irmã é “especial”.  Mas como eu posso afirmar que uma filha é especial, e a outra não? Quem por acaso não acha que o filho é a criança mais especial do mundo?

Uma das coisas que mais me surpreendeu quando comecei a ter contato com pais e mães de outras crianças com síndrome de Down foi constatar a enorme população de meninos e meninas com a trissomia 21. E por que eu não os vejo todos os dias, nas pracinhas, nos shoppings, nos consultórios pediátricos? Por que a minha filha foi o primeiro bebê com síndrome de Down que eu vi? Creio que o fato de o “Especial” ter ganho tanta força decorre mesmo da “especialidade” causada pela exclusão. A falta de acessibilidade fecha as portas a boa parte das pessoas com deficiências físicas de restaurantes, bares, teatros, cinemas… O preconceito segrega aqueles com deficiências intelectuais a escolas próprias e nega-lhes, ainda, o direito à convivência social. É uma população enorme, que continua invisível, porque não permitimos que ela esteja conosco.

 Somos nós, pais e mães, os primeiros responsáveis a promover a inclusão dos nossos filhos e a lutarmos contra a sua condição “especial”. Existem mil e uma razões para os nossos filhos serem especiais, que nem de longe passam pela deficiência. Neste ponto, um filho não é diferente do outro. Porque deveria ser diferente, então, quando se trata da vida em sociedade? 

Claro que a minha filha é especial, porque saiu da minha barriga. Nisto ela não é diferente da irmã. Mas não quero que ela seja “especial” pro resto da vida, simplesmente porque tem síndrome de Down. Existem mil e uma razões que fazem das minhas filhas pessoas especiais mas, aí, só conhecendo-as pessoalmente pra saber.

Cena vivida por mim esta semana: coloco Sophia sentada numa cadeira, na sala de espera de uma clínica. Uma pessoa lança um breve olhar sobre ela e me pergunta – ela é especial, né? Eu respondo: – Não, ela tem Síndrome de Down.

Para terminar, sugiro a leitura do texto “Vai escrever ou falar sobre deficiência? Saiba o que dizer e, principalmente, o que NÃO dizer” 

3 Comentários

Arquivado em Nós três

3 Respostas para “PELO DIREITO DE NÃO SER ESPECIAL

  1. Ana Lúcia Felix

    Olá, sou professora há 28 anos, leciono na rede municipal de Cubatão; tenho tb três lindos filhos (21,15,e 11anos), e o mais novo apresenta traços autísticos.
    Concordo qdo vc diz que toda criança é especial, sejam nossos filhos ou mesmo nossos alunos, aliás eu digo isso diariamente , sou contra incluir um se perceber que vou excluir os demais. Não admito que se façam diferenças à toa, somente para favorecer uma cça, assim como penso que a professora não pode atender exclusivamente somente a cça dita “especial”…Afinal todos os meus alunos são especiais! Acontece que mães como vc, como eu (sem falsa modéstia – que pegam os filhos no colo igualmente, sem fazer diferenças), ahhh, como são difíceis de encontrarmos nas escolas, principalmente públicas. Eu digo isso com uma certa experiência, pois, recebemos todos os anos cças com alguma deficiência, e , por mais que queiramos ajudar, elas criam uma forte barreira contra a escola, limitando-se a criticar tudo, a negar tudo o que propomos, e pior, este anos temos uma que não aceita ainda o diagn do filho, (down e outra comorbidade), isso pq ele já tem quase sete anos!!! Além disso, ela tb não segue as orientações médicas, como uso correto de medicamentos, ´nem terapêuticas (o menino não mastiga alimentos sólidos, e ela na escola afirma que sim!). Sinceramente, todos na escola envolveram-se num trabalho de inclusão, porém, a própria mãe não quer “trabalhar” nesse sentido. Chegou a nos dizer que a escola está atrapalhando a vida dela, pois , antes ele só queria andar no colo, agora, como o fazemos andar na escola, ele não quer mais o colo dela, e na rua ela se atrasa por isso!!! Olha, eu poderia ficar horas, dias aqui, relatando absurdos que passamos com essa e muitas outras mães, as quais veem a escola apenas como um DEPÓSITO de cças, porque afinal, “ELAS PRECISAM TRABALHAR!” Mas, não vou me estender, apenas queria registrar que,nesse processo de inclusão AMBAS AS PARTES ESTÃO E DEVEM SE ENVOLVER, pois só assim encontraremos saídas para diversos problemas na Educação.
    Um abraço,
    Ana Lúcia

    • barrigainclusiva

      Olá Ana Lúcia!
      Obrigada por visitar o meu blog e pelo seu comentário. Um dos maiores problemas para nós, profissionais de educação (trabalhei como educadora musical durante um bom tempo), é que muitos pais e mães esperam que as lacunas deixadas pela educação em casa sejam preenchidas pela escola, o que não só não é possível, como atrapalha ainda mais a vida da criança na instituição. Isto se aplica a quaisquer crianças, com deficiência ou não. Por isso eu defendo a “inclusão precoce”! O acolhimento ao bebê que nasce com deficiência deve ser o melhor possível, desde a maternidade, e sua inserção na vida da família promovida desde sempre. Não vou ser hipócrita em dizer que sentimos vontade de soltar foguetes quando tomamos conhecimento da deficiência do nosso bebê recém-nascido. Mas antes de tudo há uma criança que precisa de atenção, colo, carinho, e na verdade não há tempo para “curtir” o luto. A inclusão escolar é só um momento de um processo que deve ser promovido por todos, e não adianta escondermos os nossos filhos, fazermos tudo por eles, não lhes proporcionar a chance de desenvolver sua autonomia e depois jogá-los na escola, como se fosse o tempo pra tirar um descanso. Somos todos, pais, mães, professores, terapeutas, parceiros em busca do mesmo objetivo, que é o bem-estar da criança (pelo menos, é o que deveria ser).
      Parabéns pelos filhos e pelo trabalho, todo educador consciente de sua missão merece ser cumprimentado.
      Um abraço!

  2. gelwp

    Ana, amei seu texto!
    Tenho dois meninos especiais: o Michel, de 6 anos, e o Leo, de 2, que também tem Síndrome de Down. Engraçado que quando alguém me pergunta se ele é especial eu não explico não. Eu só sorrio e digo: muito, ele é muito especial. Partilho de seu sentimento: claro, pra mim ele é muito especial, tanto quanto o irmão, que não é deficiente.
    Parabéns pelo blog. Vou tentar passar por aqui sempre.
    Abraços
    Angélica

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