Quando a inclusão faz a diferença

 

Quando eu tinha uns dez anos uma prima muito querida, na época uma menininha de apenas quatro anos, sofreu um acidente vascular cerebral. Foi um susto enorme para toda a família. Ela era uma menina saudável, alegre, ninguém esperava que algo assim pudesse acontecer-lhe. Ela sobreviveu ao AVC, mas as sequelas foram muitas e sérias. A lembrança mais viva que eu tenho do dia em que ela voltou pra casa, depois de um longo período de internação, foi quando eu percebi que ela não sabia mais falar. Ela sorria, passava a mão na nossa cabeça, chamava a todos de “neném” e não saía do colo da minha tia. Ela também não podia mais andar.

Eu era muito pequena e somente hoje, pensando novamente naqueles dias, é que percebo qual era a gravidade da situação. As lembranças são ora vagas, ora muito claras, mas o sentimento que eu tive naquele momento é mais vivo que tudo. Eu jamais senti pena dela. Eu empurrava o seu carrinho e a levava para passear e tomar sol, depois sentávamos numa cama e eu conversava muito com ela. Brincava, contava histórias. O período de reabilitação foi longo, eu acabei aprendendo a manejar e colocar suas órteses – chamadas por nós de “aparelho” – melhor do que ninguém. Aos 10 anos eu, meus irmãos e primos reinventamos todo o nosso jeito de conviver com a minha prima e sua nova condição, mas em nenhum momento ela deixou de fazer parte das nossas brincadeiras e traquinagens.

Minha priminha hoje é uma mulher feita. Levantou-se, reaprendeu a falar, tornou-se canhota por necessidade e retomou o caminho temporariamente interrompido pela doença. Ela não só voltou à escola, hoje é Assistente Social e seu primeiro emprego foi no mesmo instituto de reabilitação de onde há anos recebeu alta como paciente. Por mais que eu procure, não consigo enxergar nela qualquer imperfeição física. Melhor, isso não conta no quanto ela significa pra mim.

É isso que as pessoas deveriam entender, principalmente aquelas que se encontram no grupo que acredita que pessoas com deficiência devem continuar segregadas em escolas especiais. Com certeza fez diferença para minha prima poder voltar à escola onde estudava, mesmo depois de o AVC ter-lhe trazido dificuldades de fala e locomoção. Também foi importante perceber que a sua nova condição não a tornou diferente de nós, as outras crianças da família. Em nenhum momento deixamos de brincar com ela ou de querer sua companhia! Ao contrário, eu adorava acompanhá-la às sessões de fisioterapia e ouvi-la falar sobre os exercícios, os aparelhos, a piscina. Tudo parecia parte de uma brincadeira, apesar de na nossa idade termos consciência que aquilo a faria melhorar. Não posso negar que os seus pais tenham sofrido com os danos irreversíveis que a doença lhe trouxe, e que muitas vezes tenham se sentido cansados diante da intensa rotina de terapias. Mas nenhuma das minhas lembranças está relacionada a sofrimento ou dor. Somente persistência, superação, apoio e muito amor lembram aqueles dias de reabilitação da minha prima, hoje uma pessoa plena e capaz de traçar e trilhar o seu próprio caminho.

A inclusão fez a diferença, não só para a minha prima, mas para mim também. Sou grata por ter vivido tão cedo esta experiência, que com certeza me preparou para receber as minhas filhas.

Obrigada, prima, por me incluir na sua vida.

Te amo Cau!!

2 Comentários

Arquivado em Nós três

2 Respostas para “Quando a inclusão faz a diferença

  1. Adelzuita

    Ana,muita paz.Li noseu blog sobre inclusão,e quero dizer dos problemas que atingem as vítimas do AVC e ficaram com sequelas:São aos poucos desprezadas pelos amigos ,esquecidas,tratadas em alguns casos como se fossem aberrações e obrigadas a ouvirem comentários desagradáveis como se estivessem ausentes.No nasceram assim, mas estão assim.

    • barrigainclusiva

      Adelzuita,
      obrigada por visitar o meu blog. Fiz questão de falar sobre minha prima para mostrar isso: as sequelas de um AVC podem trazer deficiências, mas o ser humano continua o mesmo: com sua história, sentimentos, expectativas. A forma de acolhimento é fundamental para que ele possa se adaptar à nova condição, traçar novos objetivos e, antes de tudo, ser feliz!! Isso qu vc descreve é, infelizmente, o triste retrato do que acontece com muitas pessoas que adquirem uma deficiência ao longo da vida, fato do qual, aliás, nenhum de nós está livre!!
      Um abraço

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