Arquivo do mês: setembro 2009

Aos terapeutas, com carinho!!

terapias blog

Vivemos acreditando que há um lugar, um momento a ser alcançado, onde e quando finalmente seremos felizes.

Pode ser depois da formatura, depois da dieta, quando finalmente aquele carro ou casa dos sonhos nos pertencer.

Vivemos tão cheios de projetos, planos, perspectivas… que às vezes esquecemos a parte mais divertida da nossa história!!

Se pensamos na vida como uma busca desenfreada por grandes coisas, é possivel que ignoremos os pequenos milagres que acontecem o tempo todo à nossa volta.

Se entendemos que o valor da vida não está no topo da montanha ou na linha de chegada, abrimos os olhos para a grandiosidade dos fatos mais rotineiros.

Acompanhar as terapias da minha filha me deu a chance de testemunhar estes pequenos milagres… assim como tem me ensinado a reconhecê-los, no momento em que acontecem!

Acho que não quero visualizar o topo da montanha, pelo menos não neste momento… Chegar lá agora não ia ter a menor graça.

Aqui, um pedacinho da nossa vida ao lado destas pessoas, que  caminham conosco nesta jornada, às vezes árdua,  mas também divertida e gratificante.

Pedimos licença ao mestre para dizer: “Aos terapeutas, com carinho!!”

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Derrubando barreiras: a história de João Vitor, bacharel em Educação Física

 

Agradecemos a colaboração de Jô Bibas, autora do texto que publicamos hoje, em que conta a emocionante história de João Vitor,  jovem com síndrome de Down do Paraná e portador de um belo diploma em Educação Física.

JOÃO VITOR CHEGOU LÁ

*Josiane Mayr Bibas

João Vítor no dia da apresentação do seu TCC

João Vítor no dia da apresentação do seu TCC

 “Por favor, me explica o que é licenciatura?” A pergunta foi a segunda que fiz a João Vitor, no encontro que marca os 4 anos de nossa conversa no dia em passou no vestibular. A primeira tinha sido sobre o que estava sentindo ao se formar em Educação Física, pela Universidade Tuiuti do Paraná.

Pois é isso mesmo. Nosso amigo, que teve seus muito mais de 15 minutos de fama por ser um jovem com Síndrome de Down que ultrapassou a barreira da entrada em uma universidade, acaba de concluir o curso. Quando passou no vestibular, causou comoção geral. “Será difícil”, diziam os mais céticos. “Como faremos?” –  se perguntavam os professores.

Durante o tempo de faculdade, estudou muito. Admite que foi mesmo difícil, precisou de apoio e foi atrás. Com a ajuda dos pais, contemplados com elogios que transitam por termos como amigos, confidentes e grandes motivadores, foi buscar o apoio de professores que reforçavam as matérias nos contra-turnos. Quase uma dupla jornada universitária. Isso sem falar dos estágios nas mais diferentes áreas e modalidades, diferentes endereços e variados horários! Conversando com João Vitor, saímos com uma sensação muito clara: a de um rapaz que tem plena consciência de que tem um ritmo diferente de aprendizagem e não vê nenhum problema em encontrar formas de fortalecer seu conhecimento, mesmo que isso signifique estudar mais, se dedicar muito, fazer hora-extra na sala de anatomia e sacrificar férias e lazer por notas boas.

A inclusão não foi fácil. Natural, se pensarmos no pioneirismo de um jovem com SD no ensino superior. Alguns professores se adaptaram, outros permaneceram com um olhar de incredulidade que foi sendo derrubado aos poucos.  Precisou lidar com provas escritas, mesmo dizendo aos professores que com provas orais teria  mais chance de demonstrar seus conhecimentos, uma vez que sabe que se expressa melhor falando do que escrevendo. É por ter convivido e superado obstáculos como esse que João me diz: ”Me formei por mérito meu”. Quando pergunto se sofreu algum tipo de preconceito, deixa claro que muitas vezes sentiu que não acreditavam em suas capacidades. Pergunto, então, como lidava com essas situações, como reagia à discriminação. Sua resposta é uma lição: “Eu trato as pessoas como gostaria que elas me tratassem”.

João precisou travar suas batalhas, mas acabou mostrando que é competente. Beatriz L. Dorigo, coordenadora do curso de Educação Física da UTP, relata que João Vitor vem sendo um aluno responsável, disciplinado e consciente de seus limites. “Ele faz tudo o que pode e mais um pouco, ultrapassa as fronteiras e vai além do proposto”. Ela usa o verbo no tempo presente pois “ele  realizou o sonho de ser um Bacharel em Educação Física e já está matriculado na Licenciatura.  E logo estará fazendo uma pós-graduação na área”. Alguém duvida?.
           
Hoje, como bacharel em Educação Física, está apto a trabalhar em academias, clubes e como personal trainner. Confirma seu projeto da entrevista de 2005: “Quero trabalhar com pessoas com necessidades especiais. Quero formar atletas. Quero que elas evoluam com eu evoluí, socialmente, cognitivamente, através do esporte”. Não satisfeito, dispara: “Já vou começar a estudar para ter a Licenciatura. Quero poder dar aulas em escolas sobre a importância de exercício físico”. João Vitor acredita que manter-se ligado à universidade aumenta seu preparo e o mantém cognitivamente ocupado. Aprendendo sempre.

Nos últimos meses, esteve estagiando em uma academia, participando do treinamento de triatletas. O professor Cassio Salgueirosa foi percebendo potenciais no lugar onde imaginava haverem apenas deficiências. Cassio conta que sempre tratou João com o mesmo nível de exigência que teve com seus outros estagiários, obtendo como retorno um desempenho com a mesma (e às vezes até maior) competência dos colegas. Vê seu ex-estagiário como um exemplo que, consciente de sua dificuldade, está sempre provando que é capaz.  Me diz que “o que as pessoas com necessidades especiais precisam é de oportunidades”. Assim, ao assistir a apresentação do TCC de João, decidiu: o trabalho com João e, o mais importante, o trabalho DE João, fez com que Cassio criasse um novo projeto: os benefícios da corrida para pessoas com síndrome de Down. Por conta da idéia, João Vitor está treinando duas vezes por semana com o professor em um belo parque nas manhãs geladas de Curitiba, e se prepara para formar uma equipe de corredores com SD. Ou, como ele mesmo diz, de caminhadores a maratonistas, cada um do seu jeito, mas todos aprendendo que atividade física faz bem para o corpo, para o social, para o cognitivo. Como fez bem para o João.

Bonito ver o jovem desempenhando como palestrante, apresentando seu Trabalho de Conclusão de Curso, coberto por um belo terno azul-marinho e de uma segurança que impressionou e emocionou até os professores mais reticentes. O tema não podia ser outro: “A Influência da Atividade Física no Desenvolvimento Físico-Motor das Pessoas com Síndrome de Down: Visão Familiar”. O professor Eduardo M. Scheeren, seu orientador neste trabalho, ficou impressionado com a maturidade de João Vitor no conhecimento sobre sua síndrome e diz ter aprendido muito com ele. “A literatura ainda é muito limitada ao apresentar todo o potencial que uma pessoa com SD pode desenvolver, e isso pode conduzir a uma visão errônea de suas reais capacidades. Com o João pude ver que as barreiras impostas pelo contexto científico podem ser transpostas pela superação e força de vontade. Considero o João Vitor um exemplo da grande potencialidade de uma pessoa com SD”, afirma. E enfatiza, ao dizer que as qualidades de João Vitor estão além do aspecto cognitivo, pois, aluno exemplar, sempre cumpriu nos prazos suas tarefas, trabalhos e provas. Articulado, muitas vezes se destacou pela desenvoltura de sua oratória. “É um jovem extremamente educado que sempre soube me respeitar como pessoa e professor.”
Neste ponto, me permitam uma reflexão sobre o depoimento deste professor. A inclusão tem dessas coisas, faz a gente aprender que jovens como João Vitor, que inicialmente despertam tanta resistência, nos ajudam a resgatar velhos valores e a ver que eles podem ensinar coisas meio esquecidas por tantos estudantes de hoje: a educação,  o respeito mútuo, a disciplina. E acima de tudo, a superação.

E termino citando novamente o professor Eduardo que, por sua vez, citou Jean Cocteau: “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez”. João Vitor até sabia que seria difícil. Mas foi lá e se formou em Educação Física.

Mais uma vez, parabéns, João.

*Josiane Mayr Bibas é fonoaudióloga com experiência de mais de 22 anos no atendimento a crianças com Síndrome de Down. Juntamente com a também fonoaudióloga Ângela Marques Duarte, acaba de lançar em Curitiba o livro “Idéias de Estimulação para a Criança com Síndrome de Down”.

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BEM VINDO À ITÁLIA!

“Freqüentemente me pedem para descrever a experiência de dar à luz uma criança portadora de necessidades especiais.

 Eu diria assim:

Ter um bebê é como planejar uma fabulosa viagem de férias para a Itália. Você compra um monte de guias e faz planos maravilhosos: o Coliseu, o Davi de Michelangelo, as gôndolas em Veneza… Você até aprende algumas frases em italiano. É tudo muito excitante.

Após meses de antecipação, finalmente chega o grande dia.

Você arruma as malas e embarca. Algumas horas depois, você aterrisa. O comissário de bordo chega e diz: “Bem-vindo à Holanda!”.

Holanda? – diz você. O que quer dizer com Holanda? Eu escolhi a Itália! Eu devia ter chegado à Itália. Toda a minha vida eu quis conhecer a Itália!

Mas houve uma mudança no plano de vôo. Eles aterrisaram na Holanda e é lá que você deve ficar. O mais importante é que eles não levaram você para um lugar horrível e desagradável, com sujeira, fome e doença. É apenas um lugar diferente.

Você precisa sair e comprar outros guias. Deve aprender uma nova língua e irá encontrar pessoas que jamais imaginara. É apenas um lugar diferente. É mais baixo e menos ensolarado que a Itália. Mas, após alguns minutos, você pode respirar fundo e olhar ao redor.

Começa a notar que a Holanda tem moinhos de vento, tulipas e até Rembrandt e Van Gogh. Mas, todos os que você conhece estão indo e vindo da Itália, comentando a temporada maravilhosa que passaram lá.

Por toda a sua vida você dirá: Sim, era onde eu deveria estar. Era tudo o que eu havia planejado.

A dor que isso causa, nunca, nunca irá embora, porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa.

No entanto, se passar toda a vida remoendo o fato de não ter chegado à Itália, nunca você estará livre para apreciar as coisas belas e muito especiais existentes na Holanda.”

Emily Perl Knisley

Este texto tornou-se um verdadeiro clássico como mensagem para pais e mães de crianças com deficiência. A primeira vez que o li, minhas filhas ainda eram recém-nascidas. Não consegui ter uma opinião clara sobre ele, mas também não gostei. Hoje, dois anos depois, consigo entender o porquê… Naquele momento, ainda fragilizada pelas dúvidas sobre o futuro, o texto só fez reafirmar as idéias de frustração e luto, e me apresentavam a minha filha como um projeto que jamais se tornaria realidade. Ainda acho o texto tocante como tradução legítima do sentimento de UMA mãe, mas em nenhuma hipótese válido como ilustração da experiência de todos os pais e mães que acabam de receber um filho com deficiência.

 As experiências da vida, sejam elas quais forem, tem valor absoluto e relacionado a cada indivíduo. Aprendi a admirar as corridas de rua, porque são o melhor exemplo disso. Um dia, até penso em participar de uma prova… Quando este dia chegar e eu tiver completado os meus cinco quilômetros em não sei quanto tempo, com certeza irei vibrar tanto quanto o primeiro colocado. Talvez, até, ele se sinta frustrado porque esperava por um tempo melhor, enquanto eu estarei realizada por ter conseguido chegar ao fim da corrida. Este raciocínio torna a Itália acessível a todos nós, inclusive àqueles que tem filhos com deficiência. Por isso, sinto-me à vontade para propor um novo texto, baseado na mesma idéia de VIAGEM.

Eu poderia descrever a experiência de dar à luz uma criança com deficiência como planejar uma fabulosa viagem de férias para a Itália. Você se prepara buscando informações na Internet, compra guias, conversa com pessoas que já estiveram lá e não consegue esquecer aquelas imagens maravilhosas dos filmes clássicos: o Coliseu, o Davi de Michelangelo, as gôndolas em Veneza…  Você até aprende italiano!! Sabe que, no entanto, toda viagem pode trazer surpresas…

Você começa a pagar a viagem um pouco antes, conseguiu dividir o pacote em 10 vezes no cartão.

Finalmente chega o grande dia!!! Você arruma as malas e embarca. O vôo é tranqüilo, depois de algumas horas de viagem o avião aterrissa. O comissário de bordo fala uma língua estranha, você não lembra de ter lido aquelas palavras no seu livro “Aprenda italiano em uma semana”. Um brasileiro que viajava atrás de você o reconhece pelo endereço na sacolinha da agência de viagem, bate no seu ombro e diz: “Bem-vindo à Holanda!!!”

Holanda? – diz você. O que quer dizer com Holanda? Eu escolhi a Itália! Eu devia ter chegado à Itália. Toda a minha vida eu quis conhecer a Itália!

Mas a Holanda é o fim da linha… Você desce do avião, desesperado, sem saber o que fazer.  Anda de um lado pro outro, procura pelo brasileiro do avião, não consegue se fazer entender. De repente olha para o painel de decolagens e percebe… está prestes a perder a conexão… para ROMA!!!

A felicidade é tanta que você entra no avião disposto a curtir ainda mais tudo que a Itália tem para oferecer, e fica sonhando com aquele cheirinho de molho de tomate com manjericão.

Você já tinha ouvido coisas maravilhosas a respeito da Holanda, é verdade. Mas era a Itália o grande sonho… E ele permanece. Depois de uma temporada feliz na Itália,  você descobre que ainda existem muitos outros países a serem visitados, muito mais cheiros e sensações a serem experimentadas. A Itália é só o começo de uma grande volta ao mundo, e ao longo dela você coleciona histórias maravilhosas.

Quanto à dor… Bom, a dor de não ter ido imediatamente para a Itália, você supera. O que de vez em quando dói é quando você conta, e ninguém acredita que realmente esteve lá.

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PELO DIREITO DE NÃO SER ESPECIAL

A atriz Thais Araujo, questionada sobre o fato de ser a primeira protagonista negra de uma novela das oito, respondeu falando da sua satisfação ao receber o roteiro com a descrição do personagem: Modelo, 30 anos. Alusão à cor? Nenhuma. É vergonhoso para um país como o Brasil, com seu povo mestiço e, em estados como a Bahia, predominantemente negro, o fato de que uma atriz negra seja protagonista de novela cause sozinho tanto furor.  Deveríamos estar acostumados a ver nossas belas e talentosas moças de pele escura ocupando os papéis principais nas novelas, desfilando nas passarelas… Mas onde elas estão? Não existem? A propósito, não haveria sequer uma menina brasileira negra que estivesse à altura do “Garota Fantástica” da Rede Globo?? Como disse a própria Thaís Araújo, o objetivo é que a participação dos atores negros chegue a um nível que a alusão a cor não seja mais necessária. Que isto seja NORMAL.

De acordo com o censo do IBGE de 2000, existem no Brasil cerca de 10 milhões de pessoas com deficiência. Mas os tipos de deficiências somam quase 35 milhões. Chamar a todo este contingente populacional de “especiais” não ajuda ninguém, por mais poético e bem intencionado que o termo possa parecer. Existem necessidades comuns entre as pessoas em função do tipo de deficiência, mas isto não os torna todos membros de uma categoria “especial” de seres humanos.

Aboli de início o título de “criança especial” para minha filha com síndrome de Down, uma vez que não concordo com a generalização que ele promove mas, principalmente, porque seria injusto com a outra. Quando Nathalia passou a reclamar do fato de eu sair todos os dias “só com Sophia”, fui instruída por algumas pessoas a explicar-lhe que ela deveria entender que sua irmã é “especial”.  Mas como eu posso afirmar que uma filha é especial, e a outra não? Quem por acaso não acha que o filho é a criança mais especial do mundo?

Uma das coisas que mais me surpreendeu quando comecei a ter contato com pais e mães de outras crianças com síndrome de Down foi constatar a enorme população de meninos e meninas com a trissomia 21. E por que eu não os vejo todos os dias, nas pracinhas, nos shoppings, nos consultórios pediátricos? Por que a minha filha foi o primeiro bebê com síndrome de Down que eu vi? Creio que o fato de o “Especial” ter ganho tanta força decorre mesmo da “especialidade” causada pela exclusão. A falta de acessibilidade fecha as portas a boa parte das pessoas com deficiências físicas de restaurantes, bares, teatros, cinemas… O preconceito segrega aqueles com deficiências intelectuais a escolas próprias e nega-lhes, ainda, o direito à convivência social. É uma população enorme, que continua invisível, porque não permitimos que ela esteja conosco.

 Somos nós, pais e mães, os primeiros responsáveis a promover a inclusão dos nossos filhos e a lutarmos contra a sua condição “especial”. Existem mil e uma razões para os nossos filhos serem especiais, que nem de longe passam pela deficiência. Neste ponto, um filho não é diferente do outro. Porque deveria ser diferente, então, quando se trata da vida em sociedade? 

Claro que a minha filha é especial, porque saiu da minha barriga. Nisto ela não é diferente da irmã. Mas não quero que ela seja “especial” pro resto da vida, simplesmente porque tem síndrome de Down. Existem mil e uma razões que fazem das minhas filhas pessoas especiais mas, aí, só conhecendo-as pessoalmente pra saber.

Cena vivida por mim esta semana: coloco Sophia sentada numa cadeira, na sala de espera de uma clínica. Uma pessoa lança um breve olhar sobre ela e me pergunta – ela é especial, né? Eu respondo: – Não, ela tem Síndrome de Down.

Para terminar, sugiro a leitura do texto “Vai escrever ou falar sobre deficiência? Saiba o que dizer e, principalmente, o que NÃO dizer” 

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INCLUIR é tão importante quanto ESTIMULAR

Assim que damos à luz uma criança com Síndrome de Down, passamos a ouvir constantemente um verbo que jamais deixará de fazer parte da nossa vida: ESTIMULAR. A cada novo profissional, seja ele médico, terapeuta, ou até mesmo a vizinha que também tem uma amiga que tem um “filho especial”, a pergunta é sempre a mesma: a criança está sendo devidamente estimulada? 

Entre as muitas pessoas de quem eu recebi este tipo de questionamento, poucas tiveram o trabalho de me explicar o que é mesmo “estimular”.  Cheguei a adquirir uma certa aversão pela palavra, por ela ser aplicada, a maior parte das vezes, de forma meio burocrática. Será que é a estimulação com hora e local marcados no consultório do terapeuta a garantia do desenvolvimento dos nosssos filhos com síndrome de Down?

É preciso termos clara a distinção entre o sentido clínico da estimulação precoce e aquela promovida no dia a dia, por todas as pessoas que participam da vida dos nossos filhos. A intervenção precoce através das terapias é fundamental e inquestionável, devendo ser iniciada o mais cedo possível. Mas a maior parte do trabalho (e do prazer!) de fomentar o desenvolvimento dos nossos filhos está nas nossas mãos, ajudando-os a participar desde cedo do dia a dia da família, incluindo-os nas brincadeiras, nos afazeres, conscientizando-os dos caminhos percorridos, das pessoas à sua volta… Enfim, apresentando-lhes o mundo com todas as suas cores e possibilidades, deixando-os à vontade para serem protagonistas de sua vida. E depois de mais de dois anos de experiência eu afirmo sem medo: INCLUIR é tão importante quanto ESTIMULAR.

O caminho inicial de pais e mães de crianças com síndrome de Down não é fácil. Além de alguns problemas de saúde que podem acontecer, precisamos lidar com o nosso próprio preconceito, que faz do nascimento de um filho com deficiência uma experiência de dor e decepção.  Mas a maior barreira a ser quebrada, no entanto, é que fiquemos tão bem informados com relação à deficiência, que ela se torne um pressuposto e determine negativamente a nossa atitude com relação àquela criança que, graças aos estigmas físicos, traz o rótulo do “atraso” como um verdadeiro carimbo. Lembro de um episódio em que minha filha foi carregada numa brincadeira de roda com outras crianças, apesar de poder andar…  Mais do que a orientação abstrata de estimular, pais e mães de crianças com síndrome de Down deveriam ser incentivados a promoverem a “inclusão precoce”, levando os filhos para todos os lugares e possibilitando-lhes as experiências oferecidas a quaisquer crianças. Parece óbvio? Sim, mas nem sempre é.  Porque a resposta a um beijinho, um aceno ou um sorriso pode demorar um pouco mais quando se trata de um bebê com síndrome de Down. É exatamente neste momento que o risco da exclusão começa.

 A INCLUSÃO precoce é o melhor estímulo.

No video, dança inclusiva na sala de casa

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Bibliotecas Públicas realizam programação especial de promoção à inclusão em Salvador

 
 
No mês de setembro, as Bibliotecas Públicas realizam a “Primavera da Inclusão”, uma programação especial voltada para promover a inclusão de pessoas com necessidades especiais, além de discutir e estimular a participação cidadã. As bibliotecas públicas do Estado oferecerão aos seus usuários palestras e oficinas gratuitas focadas nos direitos de pessoas surdas, cegas e portadores de deficiências físicas. É a promoção do acesso sem restrições.

Na Biblioteca Anísio Teixeira (BAT), o I Seminário “A importância da Biblioteca na vida sociocultural do surdo” dará início às atividades. Promovido pela Fundação Pedro Calmon/Secult, o seminário acontecerá no dia 12 de setembro, das 8 às 18h. As inscrições são gratuitas e poderão ser feitas através do email bat@fpc.ba.gov.br ou dos números 31176337/6339. Será fornecido certificado aos participantes. Na ocasião, ocorrerá também a inauguração do Setor de Atendimento à Criança e ao Adolescente Surdo (SACAS), um espaço que oferecerá atendimento especializado para esta parcela da população.

De acordo com a Associação de Pais e Amigos de Deficientes Auditivos – APADA, 4% da população de Salvador é surda. Diante desta realidade, “a Biblioteca Anísio Teixeira, como espaço difusor da cultura e da inclusão social, desenvolve, através do incentivo à leitura, um trabalho junto aos surdos, e promove o I Seminário sobre a relevância da língua portuguesa oral e escrita para o seu desenvolvimento e relacionamento com a comunidade em que vivem, despertando-os para seus direitos enquanto cidadãos”, destaca a diretora da BAT, Ângela Deiró. O Seminário comemora também o Dia Nacional do Surdo (26/9). A data foi escolhida por lembrar o dia da inauguração da primeira escola para surdos no país, o Instituto Nacional de Surdos Mudos do Rio de Janeiro em 1857, atualmente chamado de Instituto Nacional de Educação de Surdos.

Já na Biblioteca Pública do Estado, será a vez de saber mais sobre Acessibilidade, com a especialista em Orientação e Mobilidade, Ednalva Guedes Dias, no dia 22, às 10h. A garotada também poderá participar, no dia 13, às 10h, da oficina com crianças surdas com a oficineira Marcia Araújo, na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato.

BAT – Desde o ano de 2006, a Biblioteca Anísio Teixeira promove o Curso de Noções Básicas de Libras, visando formar pessoas habilitadas para o atendimento aos surdos. Dando continuidade a esta iniciativa, foi realizada, em 2008, a primeira parte deste curso, destinado à capacitação dos funcionários da Diretoria de Bibliotecas. A BAT vem incentivando, desde então, a inclusão do surdo de várias formas. Dentre elas, destaca-se, por exemplo, a exibição de filmes nacionais com legenas em português e a presença de um funcionário capacitado para dialogar através das LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) com os frequentadores. .

Serviço

O que: Programação “Primavera da Inclusão”
Onde: Bibliotecas Públicas do Estado
Quando: Durante todo o mês de setembro
Entrada franca
—-

Programação do
I Seminário “A importância da Biblioteca na vida sociocultural do surdo”

Quando: 12 de setembro, das 8h ás 18h.
Onde: Biblioteca Anísio Teixeira
Inscrição gratuita pelos tels. 31176337/6339 ou email bat.fpc@fpc.ba.gov.br
Obs.: vagas (limitadas)

08h – Abertura oficial ( com o Hino Nacional em Libras)
08h30 – Desriée de Vit Bregrow (fono): A importância do português para o surdo (Dissertação de Mestrado – UFBA)
9h – Depoimento de Ângela Deiró, diretora da Biblioteca Anísio Teixeira, que falará sobre sua experiência com uma filha surda.
09h30 – Marcilio de Carvalho Vasconcelos (Surdo): tema “Eu surdo”
10h – Intervalo e Inauguração do SACAS – Setor de Atendimento a Criança e ao Adolescente Surdo
13h30 – Márcia Araujo (Psicóloga): A família contando história para surdo
14h – Milton Araujo (Surdo): a importância da história infantil para o desenvolvimento da criança surda.
14h30 – Nilton Sá Damasceno “Humor Surdo”
15h – Discussão para formatação de um documento onde os surdos debaterão sobre o que eles esperam do SACAS, a ser encaminhado à FPC/SECULT
16h30 – Participação de Edinilson com apresentação da tradução do Livro Curi, Curi, Curiosos da escritora Bernadeth Argolo, em Libras.
17h – Encerramento com a música “Aquarela” de Vinicius de Morais e Toquinho traduzida em Libras


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Quando a inclusão faz a diferença

 

Quando eu tinha uns dez anos uma prima muito querida, na época uma menininha de apenas quatro anos, sofreu um acidente vascular cerebral. Foi um susto enorme para toda a família. Ela era uma menina saudável, alegre, ninguém esperava que algo assim pudesse acontecer-lhe. Ela sobreviveu ao AVC, mas as sequelas foram muitas e sérias. A lembrança mais viva que eu tenho do dia em que ela voltou pra casa, depois de um longo período de internação, foi quando eu percebi que ela não sabia mais falar. Ela sorria, passava a mão na nossa cabeça, chamava a todos de “neném” e não saía do colo da minha tia. Ela também não podia mais andar.

Eu era muito pequena e somente hoje, pensando novamente naqueles dias, é que percebo qual era a gravidade da situação. As lembranças são ora vagas, ora muito claras, mas o sentimento que eu tive naquele momento é mais vivo que tudo. Eu jamais senti pena dela. Eu empurrava o seu carrinho e a levava para passear e tomar sol, depois sentávamos numa cama e eu conversava muito com ela. Brincava, contava histórias. O período de reabilitação foi longo, eu acabei aprendendo a manejar e colocar suas órteses – chamadas por nós de “aparelho” – melhor do que ninguém. Aos 10 anos eu, meus irmãos e primos reinventamos todo o nosso jeito de conviver com a minha prima e sua nova condição, mas em nenhum momento ela deixou de fazer parte das nossas brincadeiras e traquinagens.

Minha priminha hoje é uma mulher feita. Levantou-se, reaprendeu a falar, tornou-se canhota por necessidade e retomou o caminho temporariamente interrompido pela doença. Ela não só voltou à escola, hoje é Assistente Social e seu primeiro emprego foi no mesmo instituto de reabilitação de onde há anos recebeu alta como paciente. Por mais que eu procure, não consigo enxergar nela qualquer imperfeição física. Melhor, isso não conta no quanto ela significa pra mim.

É isso que as pessoas deveriam entender, principalmente aquelas que se encontram no grupo que acredita que pessoas com deficiência devem continuar segregadas em escolas especiais. Com certeza fez diferença para minha prima poder voltar à escola onde estudava, mesmo depois de o AVC ter-lhe trazido dificuldades de fala e locomoção. Também foi importante perceber que a sua nova condição não a tornou diferente de nós, as outras crianças da família. Em nenhum momento deixamos de brincar com ela ou de querer sua companhia! Ao contrário, eu adorava acompanhá-la às sessões de fisioterapia e ouvi-la falar sobre os exercícios, os aparelhos, a piscina. Tudo parecia parte de uma brincadeira, apesar de na nossa idade termos consciência que aquilo a faria melhorar. Não posso negar que os seus pais tenham sofrido com os danos irreversíveis que a doença lhe trouxe, e que muitas vezes tenham se sentido cansados diante da intensa rotina de terapias. Mas nenhuma das minhas lembranças está relacionada a sofrimento ou dor. Somente persistência, superação, apoio e muito amor lembram aqueles dias de reabilitação da minha prima, hoje uma pessoa plena e capaz de traçar e trilhar o seu próprio caminho.

A inclusão fez a diferença, não só para a minha prima, mas para mim também. Sou grata por ter vivido tão cedo esta experiência, que com certeza me preparou para receber as minhas filhas.

Obrigada, prima, por me incluir na sua vida.

Te amo Cau!!

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